terça-feira, 29 de março de 2011

Morre aos 79 anos o ex-vice-presidente José Alencar


Desde 1997, ele lutava contra o câncer. Nos últimos treze anos, Alencar foi internado diversas vezes

29/03/2011 | 14:00 | GAZETA DO POVO, COM AGÊNCIAS

O ex-vice-presidente da República José Alencar morreu às 14h41 desta terça-feira (29) de câncer e falência múltipla dos órgãos, aos 79 anos. A informação foi confirmada pelo boletim médico doHospital Sírio-Libanês, em São Paulo, divulgado às 15h. Alencar lutava contra um câncer na região do abdome e estava internado no Sírio-Libanês desde segunda-feira (28), com um quadro de suboclusão intestinal.

Desde 1997, ele lutava contra o câncer. Nos últimos 13 anos, Alencar foi internado diversas vezes, passou por um tratamento experimental nos Estados Unidos e se submeteu a dezesseis cirurgias.


Em Portugal, a presidente Dilma Rousseffdecretou luto oficial de sete dias e confirmou que José Alencar será velado no Salão Nobre do Palácio do Planalto.

O corpo do ex-vice-presidente deve chegar a Brasília às 8h30 desta quarta-feira (30). Ele será recebido na Base Aérea pelo presidente em exercício, Michel Temer, os presidentes do Senado, José Sarney (PMDB-AP), da Câmara, Marco Maia (PT-RS), e do Supremo Tribunal Federal, Cezar Peluso.

Depois, o corpo será transportado em carro do Corpo de Bombeiros até o Palácio do Planalto e será carregado até o Salão Nobre. O velório deve ser iniciado por volta das 10h30 e será aberto ao público.

Ele também será velado em Belo Horizonte, noPalácio da Liberdade, entre 8h30 e 13 horas de quinta-feira (31), de acordo com informações divulgadas pelo Hospital Sírio-Libanês. Após a cerimônia, o corpo de Alencar será enterrado.

Confira a trajetória de José Alencar

Veja o slideshow com a trajetória de José Alencar

Dilma e Lula se emocionam ao falar de morte

Em Coimbra, muito emocionados e com lágrimas descendo dos olhos, a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silma lamentaram profundamente a morte de Alencar. Dilma concedeu entrevista e se desculpou pela declaração que tinha feito momentos antes à imprensa. Ela havia dito que estava acompanhando a situação do ex-vice-presidente com muita preocupação, mas ressalvando que ele "sempre surpreendia", demonstrando esperança.

A presidente esclareceu que, quando fez esse comentário, não sabia que o falecimento já tinha ocorrido. "Não sabíamos que o nosso querido José Alencar já tinha morrido. Nós estamos em um momento de muito sentimento. Eu tenho uma grande honra de ter convivido com ele. Foi presidente da República por mais de oito meses. Estou oferecendo o Palácio do Planalto à família para que o corpo dele seja velado na condição de chefe de Estado", disse a presidente da República.

O ex-presidente Lula, ao lado de Dilma, estava ainda mais emocionado e chegou a chorar fortemente. Lula fez muitos elogios a Alencar e lembrou de quando o conheceu e o escolheu para ser o seu candidato à vice-presidência. Recordou que havia perdido muitas eleições e que sempre tinha a mesma quantidade de votos, em torno de 30%. "Eu precisava do restante e o restante era o Zé Alencar. Quando o conheci, eu disse: encontrei o meu vice", declarou.

Lula salientou a lealdade, a dedicação e a capacidade de trabalho de Alencar, acrescentando que "nunca teve uma vírgula de divergência com ele". O ex-presidente foi mais além nos elogios. "Não existe um vice como o meu. Nós tínhamos um relação de irmãos, de pai e filho", afirmou. "É fácil elogiar quem morre porque todo mundo que morre vira uma pessoa boa. Mas ele é especial", completou.

O ex-presidente contou que estava visitando semanalmente Alencar. Relembrou que na última campanha presidencial, apesar da sua dificuldade, por causa da doença e até uma certa fraqueza Alencar fez questão de subir em um carro e acompanhar Dilma em Belo Horizonte por quatro horas. "Eu tenho de fazer isso para ajudá-la a ganhar", foi a frase de Alencar, relembrada por Lula.

Para Lula "foi um descanso" para Alencar, que "estava sofrendo muito há seis meses". Lula completou dizendo que alguns meses atrás Alencar pediu sua opinião se deveria parar de tomar os medicamentos, pois eram muito agressivos. Lula disse que era a favor de que ele parasse e que vivesse de forma "mais intensa, mais prazerosa" o resto de sua vida. "Vou dedicar o prêmio, amanhã, a ele", afirmou Lula.

Perfil

José Alencar Gomes da Silva nasceu em 17 de outubro de 1931, na localidade de Itamuri, município de Muriaé, na Zona da Mata mineira. Foi o décimo primeiro dos quinze filhos de Antônio Gomes da Silva e Dolores Peres Gomes da Silva. Aos sete anos, Alencar já trabalhava na loja do pai e aos 14 anos deixou a casa da família para trabalhar de balconista numa loja de armarinhos da cidade de Muriaé.

Aos dezoito anos, iniciou seu próprio negócio. Para isto contou com a ajuda do irmão Geraldo Gomes da Silva, que lhe emprestou quinze mil cruzeiros. Na loja “A Queimadeira” vendia tecidos, calçados, chapéus, guarda-chuvas, sombrinhas e produtos de armarinho. Em 1967, em parceria com o empresário e político Luiz de Paula Ferreira fundou a Companhia de Tecidos Norte de Minas – Coteminas.

A Coteminas, um dos maiores grupos industriais têxteis do país, tem mais de 16 mil funcionários e fábricas em seis estados e uma na Argentina. Em 1989 e 1995, foi presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) e também vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

José Alencar Gomes da Silva era casado com Mariza Campos Gomes da Silva e tinha três filhos:Josué Christiano, Maria da Graça e Patrícia.

Vida pública

Ingressou na carreira política em 1994. Foi candidato ao governo de Minas Gerais pelo PMDB, mas não chegou ao segundo turno. Em 1998, foi eleito senador por Minas Gerais, com praticamente 3 milhões de votos, a segunda maior votação do país. Em 2002, já no PL, foi eleito vice-presidente da República na chapa de Lula. No começo, Alencar gerou polêmica, tendo sido uma voz discordante dentro do governo contra a política econômica defendida pelo ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci.

Vice-presidente

Já a partir de 2004, passou a acumular a vice-presidência com o cargo de ministro da Defesa. Por diversas oportunidades, demonstrou-se reticente quanto à sua permanência em um cargo tão, mas a pedido do presidente Lula, exerceu a função até março de 2006. Renunciou para poder disputar as eleições. Foi reeleito vice-presidente, desta vez pelo PRB, para o mandato 2007/2010.

Saúde

O estado de saúde do vice-presidente sempre foi motivo de preocupação. Em 1997, durante um check-up, Alencar descobriu tumores malignos, um no rim direito e outro no estômago. Desde então, se submeteu a várias cirurgias. Na primeira intervenção, o político perdeu dois terços do estômago e o rim direito. Dois tumores foram retirados.

Três anos depois, em 2000, Alencar descobriu um novo câncer, desta vez na próstata. Ele foi operado e o órgão removido. Em 2004, um cálculo obstruiu a vesícula do vice-presidente, fato que também resultou na remoção do órgão. No ano seguinte, Alencar passou por uma angioplastia para desobstruir as artérias coronárias.

Em 2006, o político foi internado duas vezes, para a retirada de um tumor maligno e de um nódulo no retroperitônio, na região do abdome. Um novo tumor na mesma região foi descoberto, em 2007. José Alencar teve de ser operado outra vez. No segundo semestre de 2008, passa por nova intervenção cirúrgica na região do abdome. Três tumores malignos foram extirpados.

O vice-presidente estava sendo tratado com um medicamento espanhol durante as sessões de quimioterapia. Em janeiro de 2009, com a droga estrangeira não surtindo o efeito esperado, o político passou por uma complexa operação de mais de 17 horas de duração. Um tumor principal e outros oito menores foram retirados. Partes dos intestinos delgado e grosso, além de dois terços do ureter, canal responsável pelo transporte da urina entre o rim e a bexiga, precisaram ser removidas. O ureter foi substituído por uma parte do intestino delgado.

Em maio do mesmo ano, foram descobertos 18 novos tumores malignos na região do abdome. O vice-presidente decidiu viajar para os Estados Unidos para fazer um tratamento experimental. A nova droga ataca as células que provocam o tumor, e o impedem de agir. Em julho de 2009, Alencar passou por outras duas intervenções. A primeira, no dia 9, para desobstruir uma das alças do intestino delgado e a segunda, no dia 24, para tratar a obstrução do intestino grosso em razão de tumores, alguns removidos na cirurgia.

No começo de 2010, Alencar foi submetido a exames apontam anemia e um quadro congestivo pulmonar. O problema seria decorrente da quimioterapia. Em julho, os médicos identificaram umaisquemia cardíaca (deficiência na irrigação sanguínea do coração) e o vice passa por um cateterismo.

Alencar voltou ao hospital com quadro infeccioso em setembro. No mesmo mês, ele foi internado mais uma vez, agora para tratar um edema no pulmão. No final de outubro, foi internado para tratar uma obstrução intestinal. Ele não pode votar no segundo turno das eleições e recebeu a visita do presidente Lula e de Dilma Rousseff no hospital. No dia 23 de novembro, ele sofreu um infarto no miocárdio e passou por mais uma cirurgia para desobstruir o intestino e fez a retirada de parte do tumor do abdome. O vice-presidente passou alguns dias internado na UTI Cardiológica e realizou algumas sessões de hemodiálise, após a equipe médica detectar piora da função renal.

Em 17 de dezembro, Alencar recebeu alta do hospital. Cinco dias depois deu entrada novamente no Hospital Sírio-Libanês com uma hemorragia intensa abdominal. O vice passou por uma cirurgia de emergência, e a equipe médica não conseguiu controlar a hemorragia, pois os tecidos no local estavam fibrosados (colados) e decidiram, assim, encerrar a operação. Alencar chegou a perder quase dois litros de sangue, passou por uma cirurgia, e recebeu antibióticos, plasma, plaquetas e transfusões de sangue. O sangramento foi controlado com medicamentos horas depois.

No dia 23 de dezembro, o vice-presidente recebeu visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e da presidente eleita Dilma Rousseff, e chegou a manifestar o desejo de participar da cerimônia de posse de Dilma, no dia 1º de janeiro. "Espero estar lá e que os médicos me liberem para tomar um golinho", segundo relato da Assessoria de Imprensa do Planalto.

Entretanto, na véspera de Natal, Alencar teve nova piora do quadro clínico. Uma nova hemorragia no abdome foi diagnosticada pelos médicos. Novas sessões de transfusões de sangue foram realizadas e tratamento de hemodiálise. O sangramento era considerado em "moderada quantidade". O quadro impediu Alencar de participar da cerimônia de posse de Dilma Rousseff e do novo vice, Michel Temer.

No discurso de posse, Dilma fez uma homenagem a Alencar. “Que exemplo de coragem e amor à vida nos deu esse homem”, foram as palavras da presidente eleita. Um dia depois, o vice-presidente Michel Temer visitou Alencar no Hospital em São Paulo.

No dia 3, o ex-vice-presidente reiniciou o tratamento com quimioterapia. Já no papel de ex-presidente, Luiz Inácio Lula da Silva visitou José Alencar em São Paulo no dia 18 de janeiro, após voltar de férias. Na oportunidade, ele realizava quimioterapia por via oral. Na visita de Lula, Alencar estava se alimentando normalmente e respirava sem a ajuda de aparelhos.

Homenagem

Em cerimônia que reuniu partidos adversários, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), entregou no dia 25 de janeiro, aniversário da cidade, a Medalha 25 de Janeiro ao ex-vice-presidente José Alencar. O evento foi o primeiro encontro público da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva após a posse. Debilitado Alencar chegou de cadeira de rodas acompanhado por uma equipe de médicos. O ex-vice-presidente, emocionado, admitiu que chorou ao saber que Dilma e Lula estariam juntos na homenagem. "Eles vieram e eu achava que não poderia deixar de vir", disse Alencar.

Diante de parentes e políticos de diversos partidos, o ex-vice-presidente discursou por 9 minutos e 40 segundos lembrando os 90 dias de internação. Alencar ainda destacou que durante o tratamento contra o câncer, teve enfarte, edema pulmonar e até hemorragias. Ele também agradeceu o carinho de Kassab e do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB). "Para mim, (a homenagem) é uma honra muito grande", afirmou.

Alencar só foi liberado para permanecer em casa no dia 26 de janeiro, após mais de um mês internado. Em fevereiro, no dia 9, Alencar voltou a ser internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, devido a um quadro de peritonite, infecção na membrana que protege a cavidade abdominal. No dia 15 de fevereiro, Lula voltou a visitar Alencar. "Você olhando para o José Alencar ele está ótimo. Está maravilhoso, mas quem pode falar [sobre a saúde dele] são os médicos", declarou o ex-presidente na oportunidade. Com um quadro de saúde estável, ele permaneceu internado e no dia 3 de março recebeu nova visita de Lula.

Alencar só recebeu alta no dia 15 de março. Na oportunidade, o médico do ex-vice-presidente disse que Alencar teria que realizar hemodiálise três vezes por semana.

No dia 28 de março, o ex-vice-presidente voltou a apresentar quadro de perfuração abdominal e de peritonite, uma infecção na membrana que protege a cavidade abdominal. Ele precisou ser internado no Hospital Sírio Libanês em São Paulo.

Alencar morreu às 14h41 do dia 29 de março de câncer e falência múltipla dos órgãos.

segunda-feira, 28 de março de 2011

PPS expulsa dois prefeitos, quatro vices e 31 vereadores do quadro no Paraná


Lista é composta pelos prefeitos de Teixeira Soares e Santo Antonio do Caiuá, além de quatro vice-prefeitos e 31 vereadores

28/03/2011 | 16:10 | GAZETA DO POVO

O diretório do Partido Popular Socialista (PPS) no Paraná expulsou no fim de semana 37 mandatários alegando infidelidade partidária. De acordo com o PPS-PR, dois prefeitos, quatro vice-prefeitos e 31 vereadores do estado teriam apoiado candidatos de outras legendas nas últimas eleições.

Os dois prefeitos expulsos são Jose Alves de Almeida, de Santo Antonio do Caiuá, no Noroeste, eIvanor Luiz Muller, de Teixeira Soares, nos Campos Gerais. Segundo o partido, esse foi apenas o primeiro julgamento realizado no país e outros diretórios devem realizar procedimento semelhante na reestruturação do partido.

Em nota, o presidente do PPS no Paraná, deputado federal Rubens Bueno, informou que o julgamento do Conselho de Ética foi o primeiro passo na preparação do partido para as eleições municipais de 2012. Bueno disse que não interessa ao PPS manter no quadro pessoas “que não tem compromisso com o projeto do partido".

Em todo o Paraná, o partido avaliou 171 processos de quatro filiados sem mandato, 14 vice-prefeitos, 11 prefeitos e 142 vereadores. De acordo com o PPS, o Conselho de Ética sugeriu 49 arquivamentos, seis adiamentos, 69 penas médias (advertência interna) e 47 expulsões, sendo que 37 foram confirmadas.

O partido alega que os candidatos não obedeceram a Resolução Eleitoral do PPS que estabelece que os candidatos devem apoiar “exclusivamente candidatos a presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual apoiados oficialmente pelo partido".

Ainda segundo nota, o presidente do Conselho de Ética do PPS-PR, Ivo Ericsson Camargo de Lima, declarou que a avaliação de alguns pareceres foi adiada em função de particularidades de alguns mandatários. Os processos devem ser retomados na reunião semanal do partido.

Confira abaixo o nome dos mandatários expulsos e diretório divididos por cargos:

Prefeitos: Jose Alves de Almeida - Santo Antonio do Caiuá Ivanor Luiz Muller - Teixeira Soares

Vice-prefeitos: Valter Alves - Nova Aliança do Ivaí Paulo Rodrigues Bessani - Nova Aurora João Claudio Guilherme - Perobal Ivo Battisti – Salgado Filho

Vereadores: José Soares Nogueira Filho – Abatiá Jose Luiz Voltarelli - Alvorada do Sul Rafael Beckhauser – Atalaia Sidnei Demicio – Bandeirantes João Maria Carvalho de Freitas – Barracão Luiz Rogério Moacir – Cidade Gaúcha Laércio Casagrande da Cruz – Coronel Domingos Soares Douglas Domingues da Costa – Francisco Alves José Carlos Cardoso – Guaporema Manoel Pereira de Medeiros – Maria Helena Laura Tambra Alves - Nova Aliança do Ivaí Everaldo Vieira de Oliveira – Perobal Pablo Vanzelli Moreira – Pinhalão José Mascarenhas de Oliveira - Presidente Castelo Branco Edson Cappelin - Salgado Filho Raimundo Delmar Mazotti - Salgado Filho Volmar Duarte - Salgado Filho Cristiane Estela Bonim - Santa Cecília do Pavão Antonio Claudio Mendes - Santana do Itararé Jackson Vitoriano Piva - Santo Antonio do Caiuá João Antal - Santo Antonio do Caiuá Onofre Jackson Veiga - Santo Antonio do Paraíso Juarez de Jesus Pinheiro de Mello - São Jerônimo da Serra Marcelo Loreto - São Jerônimo da Serra Edson Luiz Ribeiro dos Santos - São Jorge do Oeste Marcelino Vitorino - São José da Boa Vista Orlando Leopoldino de Sousa - São José da Boa Vista Benedito Pereira da Silva – Sapopema Paulo Roberto Sanita – Tamboara Helio Targino Ribeiro – Tomazina Claudiovani Correa - Vitorino

domingo, 27 de março de 2011

Regalias de Romanelli e Durval Amaral - caso único no Brasil

Gazeta do Povo
Publicado em 27/03/2011 | ROSANA FÉLIX

Os deputados Durval Amaral e Luiz Claudio Romanelli se licenciaram para ocupar cargo no governo, mas mantêm vantagens, como gabinete e verba de ressarcimento.

As regalias que os secretários estaduais Durval Amaral e Luiz Claudio Romanelli ainda desfrutam na Assembleia Legislativa do Paraná, da qual se licenciaram dos cargos de deputado, são únicas no Brasil. Os dois, apesar de fazerem parte do Executivo, mantêm seus gabinetes e 19 funcionários no Legislativo, a um custo anual de pelo menos R$ 417,6 mil em salários – valor que pode até dobrar, caso sejam pagas gratificações. Em nenhuma das outras 26 assembleias legislativas do país foram localizados gabinetes montados para quem assumiu alguma secretaria. Segundo levantamento feito pela reportagem, cerca de 50 deputados estaduais estão nesta situação. Na Câmara Federal, da qual se licenciaram 46 parlamentares, também não é permitida a manutenção de gabinetes.

Além disso, Amaral e Romanelli ainda utilizam a verba de ressarcimento da atividade parlamentar, que subsidia gastos típicos do mandato. A cota de cada parlamentar é de R$ 15 mil mensais, sendo que o saldo não utilizado pode ser aproveitado nos meses seguintes. Em janeiro e fevereiro, os dois gastaram juntos quase R$ 48 mil com combustível, telefonia, refeições e gráficas. Ao longo deste ano, se eles mantiverem a média de gastos, vão pedir o ressarcimento de R$ 298,8 mil -- mas esse valor, pela lei, pode chegar a até R$ 360 mil.

Somando a verba de gabinete e os salários dos funcionários, o custo da estrutura dupla dos secretários será de pelo menos R$ 716,4 mil. Isso se não for paga nenhuma gratificação extra, o que pode até dobrar os salários. O valor representa um gasto duplo porque as cadeiras de Durval e de Romanelli na Assembleia foram ocupadas pelos suplentes Duílio Genari (PP) e Elton Welter (PT), respectivamente -- Welter deixou a vaga por decisão da Justiça para Gilberto Martin (PMDB). Ou seja, a Assembleia Legislativa, que tem 54 deputados, está usando dinheiro público para manter 56.

Comparação

A Gazeta do Povo já havia noticiado, na edição de 3 de março, que os dois secretários mantinham funcionários na Assembleia. Eles justificaram que a estrutura era ne­cessária para atender suas bases elei­torais. Mas, conforme o le­van­tamento feito pela reportagem nos legislativos estaduais e no Con­gresso nos últimos dias, nenhum dos cerca de 100 políticos que estão na mesma situação usam duplamente a estrutura pública.

Em São Paulo, por exemplo, os dois deputados estaduais mais votados, Bruno Covas (239,1 mil votos) e Paulo Barbosa (215 mil), ambos do PSDB, deixaram a Assembleia para assumir cargos no Executivo. O segundo mantém um escritório político para atender o eleitorado na sua base, em Santos. Segundo a assessoria de imprensa de Barbosa, a manutenção do local e o pagamento do salário de cinco funcionários “sai do bolso” do próprio tucano.

O uso da verba de gabinete também é vetado nos outros legislativos, conforme as informações prestadas pelas assessorias à reportagem. O único benefício dos paranaenses que se repete em outros estados é referente ao próprio salário. Muitos deputados que assumem secretaria optam pelo salário do Legislativo, que costuma ser maior do que o oferecido pelo Executivo. No caso do Paraná, os valores são de R$ 20 mil e R$ 18,9 mil, respectivamente.

Os dois secretários foram beneficiados pela Lei n.º 16.750/10, aprovada pela Assembleia em dezembro passado. Ela foi apresentada pelo ex-deputado Antonio Anibelli (PMDB) no dia 6, poucos dias depois de surgirem os primeiros boatos de que Romanelli ocuparia a Secretaria do Trabalho. Nesse mesmo dia, o próprio Romanelli deu parecer favorável ao projeto na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Ela foi aprovada pelo plenário no dia 15 e sancionada pelo ex-governador Orlando Pessuti (PMDB) no dia 29, dois dias antes do fim do mandato.

“Mesmo existindo uma lei, ela pode ser considerada contrária aos pilares da boa administração pública, como o zelo pelo dinheiro público e o princípio da eficiência”, observa o advogado Alessandro Balbi Abreu, presidente Comissão de Direito Eleitoral da OAB em Santa Catarina. Na opinião dele, Durval e Romanelli podem vir a ser responsabilizados pelo mau uso da verba pública. “O mandatário é responsável. O Ministério Público pode requerer a devolução do dinheiro hoje mesmo ou até no final do mandato.”

Entretanto, o advogado Luiz Armando Badin, especialista em Direito Público, pondera que a lei serve como “blindagem” aos secretários. “Esse tipo de norma não é comum no Brasil, e tem a constitucionalidade duvidosa. Mas é preciso fazer uma análise aprofundada antes de se falar em improbidade administrativa.” Segundo ele, é preciso verificar se a lei tem justificativa do ponto de vista do interesse público. “Claramente é uma lei corporativa que atende aos interesses dos deputados locais. Mas qual é a vantagem do poder público em custear gastos de um deputado que está licenciado, e que tem outra estrutura no Executivo?”